Dançar com escorpiões - Reynaldo Lopes

Estar cercado por dois escorpiões em qualquer lugar é para a maioria das pessoas um pesadelo. Ao estar de frente com um já é de arrepiar, o que não seria pensar e estar entre dois por livre e espontânea vontade? Pois é, isso não é um pesadelo e sim um ato de coragem.
Estar no meio da cena com esses dois seres amados é minimamente curioso para a maioria das pessoas, mas para ele é afago, carinho, chamego dos bons. Iria mais longe: é segurança emocional e física. Segurança psíquica! Vai entender!
No meio da cena os escorpiões batem seus ferrões no solo duro, ecoando o seu ruído seco no espaço. Som assustador para a maioria das pessoas, mas para ele som de aprendizado. Talvez não só para ele, mas para os três que formam um triângulo curioso onde não há base certa, ângulo certo. Ou melhor, tudo está certo ali na forma geométrica imprecisa, frágil como pluma que flutua no ar irresponsável e ao mesmo tempo forte como aço. Incoerente? Não, pura consciência, sede de vivência e de ter em mãos e no coração a certeza de não ter respostas certas e clichês. Tudo ali ocorre na pele. Tudo ali naquela forma geométrica é belo e confuso, mas claro e preciso. Côncavo e convexo, direita e esquerda, cheio e vazio, claro e escuro, luz e sombra num equilíbrio nunca visto por qualquer forma geométrica.
Ali não há venenos. Ali não há posses. Ali há algo inominável que urge de sentimentos inalcançáveis. Ninguém entende quem dança entre dois escorpiões. Talvez nem eles mesmo entendam e só sintam, pois sentir é uma forma rara de ser o que se é de verdade.
Dançar com dois escorpiões e não morrer é uma arte e que às vezes arde quando os seus ferrões batem no solo de forma seca e certeira, ecoando no espaço o que de mais belo é a música desses seres amados.
Definitivamente dançar com escorpiões é uma arte e só ele sabe a dor e o prazer da dança diária de estar no centro da cena entre os dois escorpiões de verdade.
Escrito por Reynaldo às 00h32
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